A negociata inescrupulosa que manchou o alto escalão do futebol
internacional é bem mais antiga do que se possa imaginar. Em depoimento
nesta segunda-feira (4) à Corte do Brooklyn, em Nova York, o delator
brasileiro J. Hawilla, proprietário da empresa de marketing esportivo
Traffic, assumiu ter pago subornos a dirigentes esportivos desde 1991,
quando firmou o seu segundo contrato com a Conmebol (Confederação
Sul-Americana de Futebol) pelos direitos de transmissão da Copa América
de 1993 a 1997. Hawilla, que se declarou culpado em 2014, disse não
recordar exatamente os valores, mas estimou ser algo entre US$ 400 mil e
US$ 600 mil (R$ 1.3 milhão e R$ 1.8 milhão em valores atuais). A
informação é do jornalista Ken Bensinger, que cobre o julgamento in loco nos Estados Unidos.
Com um visual bastante cansado, de barba e carregando um balão de
oxigênio como auxílio, o antigo todo-poderoso do futebol brasileiro fez
mea culpa por se envolver no esquema de corrupção da Fifa."Foi um erro. Me arrependo muito. Abriu-se a possibilidade de pedirem
mais dinheiro cada vez que um contrato se renovava", resumiu o
ex-diretor da Traffic.
Hawilla afirmou ter pago subornos para Ricardo Teixeira, ex-presidente
da CBF, por intermédio de doleiros. Ele começou pagando US$ 1 milhão (R$
3.2 milhões), depois aumentou para US$ 1.2 mi, US$ 1.5 mi, US$ 2 mi,
US$ 2.5 mi e finalmente US$ 3 milhões (R$ 9.7 milhões). Teria depositado
subornos também para garantir que a seleção brasileira enviasse seus
melhores atletas à Copa América - o mesmo ocorreu com Julio Grondona,
ex-presidente da AFA, e a equipe da Argentina.
Na semana passada, José Eládio Rodriguez, ex-funcionário da companhia
argentina Torneos y Competencias (TyC), deu mais detalhes sobre os
arranjos. Ele disse que chegou a pagar US$ 4.8 milhões (cerca de R$ 15.6
milhões) em propina ao atual presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, e
seu antecessor, José Maria Marin – réu no processo que corre nos EUA.
Segundo Eládio, o dinheiro foi pago para garantir a exclusividade da
Globo para a transmissão da Copa América e da Libertadores da América de
2013 e 2014.
A emissora carioca, por sinal, é tema recorrente nos depoimentos do Fifagate. Em documento obtido pelo R7,
a Globo é citada ao menos 14 vezes pelo executivo argentino Alejandro
Burzaco, ex-diretor da TyC, em sua declaração perante a juíza Pamela
Chen. Ele acusa a Rede Globo de pagar US$ 15 milhões em propinas (cerca
de R$ 50 milhões) para garantir exclusividade na transmissão das Copas
do Mundo de 2026 e 2030.
O dinheiro teria sido enviado por meio do ex-diretor Marcelo Campos
Pinto para a T&T, braço na Holanda da empresa de Burzaco em
associação com a brasileira Traffic, de J. Hawilla, e posteriormente
repassado para uma conta na Suíça de Julio Grondona, ex-presidente da
Associação de Futebol Argentino e ex-vice-presidente da Fifa responsável
por cuidar dos direitos de transmissão para a América Latina. O
dirigente morreu em 2014.
Por nota, a Rede Globo negou todas as acusações e afirmou que "não é
parte nos processos que correm na Justiça americana". Os advogados de
José Maria Marin refutam a participação de seu cliente em qualquer
evento ilícito.
José Roberto
Batochio, que defende Del Nero no caso, afirmou que no período
compreendido pela investigação seu cliente não era presidente da CBF e,
portanto, não assinou os contratos sob suspeita. Ricardo Teixeira afirma
serem inverídicas as acusações. J. Hawilla se declarou culpado no caso e
devolveu R$ 494 milhões às autoridades norte-americanas.
Da Redação com R7